Piscina inflável ou de plástico, o que faz a água durar mais

Piscina inflável ou de plástico, o que faz a água durar mais

Passei dois verões achando que água de piscina pequena estragava rápido porque era pequena, e ponto.

Enchia a inflável de três metros no sábado, e na terça já estava com aquele tom esverdeado e um cheiro estranho. Esvaziava, lavava, enchia de novo.

Foram uns quinze ciclos desses até eu parar pra pensar. Duas mil e poucas garrafas de água jogadas fora por temporada, e o vizinho com a mesma piscina segurando a água por três semanas.

A diferença não era a marca dele nem o produto. Era que ele tratava a água como piscina, e eu tratava como banheira.

E o material, inflável ou plástico rígido, importa muito menos do que parece. Ele muda o trabalho de limpar, não a durabilidade da água.

Onde o material faz diferença de verdade

As duas seguram água igual. O que muda é como cada uma se comporta quando a sujeira chega.

A inflável tem três características que atrapalham, e nenhuma delas é a que as pessoas citam.

A primeira é a parede clara e meio translúcida. Luz atravessando a parede alimenta alga do jeito que uma parede opaca não alimenta, e por isso o verde costuma começar pela lateral e não pelo fundo.

A segunda é a dobra. Toda inflável tem a costura entre o fundo e a parede, e ali junta um biofilme escorregadio que você sente com o pé antes de enxergar.

Esse limo é justamente o que devolve bactéria pra água limpa depois que você trata. Ele precisa ser esfregado com pano, não escovado.

A terceira é o fundo mole. Você não consegue aplicar pressão pra esfregar nada, porque o fundo afunda junto com a mão.

A de plástico rígido resolve as três de graça. Parede opaca, cantos duros que aceitam esfrega e nenhuma costura interna pra criar abrigo.

Em compensação ela costuma ser bem menor, e volume pequeno é o que mais castiga a água. Uma de plástico rígido de metro e meio segura de 300 a 500 litros, enquanto uma inflável de três metros passa de 2.000.

Então o placar fica assim, e é contraintuitivo. O plástico rígido é mais fácil de limpar, e a inflável de bom tamanho é mais fácil de manter tratada.

Tem um detalhe da inflável que vale como aviso. Depois de esvaziar, ela precisa secar completamente antes de dobrar.

PVC guardado úmido mofa em uma semana, e a mancha de mofo no PVC não sai mais. Já perdi uma assim, e não foi por furo.

Furo, aliás, é o que menos preocupa. Kit de remendo de PVC com cola resolve um furo de galho ou de unha de cachorro em meia hora, e o remendo dura anos.

Já a de plástico rígido que trincou não tem conserto bom. Ela racha no canto por causa do sol, e cola de plástico ali sempre volta a abrir.

As seis crenças que fazem a água durar dois dias

A primeira é achar que piscina pequena não precisa de cloro, só de troca de água. Essa é a que mais custa caro, porque duas mil garrafas de água por semana não é economia nenhuma.

Além disso a água da rua não vem estéril. Em muitos lugares ela traz ferro e manganês em quantidade suficiente pra manchar o PVC e pra deixar a água amarelada horas depois de encher.

A segunda crença é que a dose é sempre igual. Não é, e errar pra mais estraga tanto quanto errar pra menos.

Cloro granulado de dicloro tem entre 55 e 60 por cento de cloro ativo. Isso significa que cerca de 2 gramas por mil litros levantam algo perto de 1 ppm na água.

Numa inflável de 2.000 litros, chegar em 1 ppm são uns 4 gramas. Menos que uma colher de chá, e não a tampinha cheia que vem na embalagem de piscina grande.

Quem usa a dose da piscina de 30 mil litros deixa a água agressiva com a pele e com o PVC, e ainda acha que o produto é ruim.

A terceira crença é que alvejante de supermercado dá no mesmo. Não dá, e por dois motivos.

O hipoclorito vendido pra piscina tem de 10 a 12 por cento de cloro ativo, e o alvejante doméstico fica na faixa de 2 a 2,5. Você precisaria de um volume bem maior pra chegar na mesma coisa.

E ele empurra o pH pra cima com força. Os que têm perfume ou tensoativo então nem entram na discussão, porque o que sobra é espuma e água opaca.

A quarta crença é a mais difícil de largar: a de que ligar a bombinha meia hora por dia resolve. Filtragem não é enfeite, é o que remove o que o cloro já matou.

A regra que funciona é o volume inteiro passar pelo filtro de duas a três vezes por dia. Com uma bombinha de cartucho de 1.500 litros por hora numa piscina de 2.000 litros, isso são 3 a 4 horas diárias.

A quinta crença é achar que água que ficou turva é falta de cloro. Muitas vezes é o contrário, e o motivo aparece com detalhe em água turva mesmo com cloro alto.

E tem uma sexta que anda junto com essa: achar que água transparente é água limpa. Transparência é ausência de partícula em suspensão, e não tem relação com desinfecção.

Dá pra ter água de vidro com zero de cloro livre. Foi exatamente o que aconteceu comigo nos primeiros verões, e por isso eu só percebia o problema quando ela já tinha virado.

A conta que quase ninguém faz

Existe um número que explica tudo isso de uma vez, e ele é simples: litros por banhista.

Numa piscina de alvenaria de 30 mil litros com quatro pessoas dentro, cada pessoa tem 7.500 litros de água pra diluir o que ela traz.

Na inflável de 2.000 litros com quatro crianças, cada uma tem 500. É quinze vezes mais carga por litro de água.

E crianças são, sem ofensa a ninguém, a carga mais pesada que existe. Suor, protetor solar, areia do pé, saliva e urina, tudo isso entra na conta.

Fralda de piscina, aliás, não retém urina. Ela retém o resto, que já é muito, mas a parte líquida passa.

Protetor solar é o campeão isolado de consumo de cloro. É o que forma aquele filme oleoso na borda e o que deixa a água com aspecto de leite fraco no fim do dia.

Some a isso a temperatura. Água de 30 a 40 centímetros de profundidade, descoberta, chega tranquilamente a 30 ou 32 graus num dia de sol forte.

Acima de uns 29 graus, bactéria se multiplica bem mais rápido e o consumo de cloro dispara. A piscina grande nunca chega nessa temperatura, e é por isso que ela parece mais fácil.

E tem o sol batendo direto na lâmina rasa. Cloro sem estabilizante exposto ao sol de verão tem meia-vida medida em dezenas de minutos, não em horas.

É por isso que dicloro é a escolha certa pra piscina pequena. Ele já vem com estabilizante na fórmula, e isso muda de vez a duração de cada aplicação.

O cheiro forte que aparece no fim da tarde, aliás, não é cloro demais. É cloramina, que é o cloro já gasto, e o assunto está detalhado em cheiro forte de cloro e o que ele significa.

Volume pequeno tem ainda um efeito químico que a piscina grande não tem. Ele muda de pH com quase nada.

A água de torneira costuma chegar com alcalinidade baixa, e alcalinidade baixa é pouca resistência à mudança. Uma colherada de produto move o pH meio ponto de uma vez em dois mil litros.

Por isso, em piscina pequena, corrija sempre com dose pela metade do que você acha. Espere meia hora de filtro rodando e meça de novo antes de pôr mais.

A rotina que faz a água durar de duas a quatro semanas

Nada disso é trabalhoso. Dá dez minutos por dia, e ainda economiza dinheiro em água.

  • Cobrir sempre que ninguém estiver dentro. Uma lona ou capa simples corta o sol direto, evita folha e segura a temperatura. É a medida com melhor retorno da lista, e o efeito é o mesmo que a capa térmica faz numa piscina grande.
  • Dosar por volume, não por tampinha. Descubra o volume real da sua piscina e trabalhe com cerca de 2 gramas de dicloro por mil litros pra cada ppm que quiser.
  • Medir com fita de teste antes de dosar. Custa pouco, leva quinze segundos e é o que impede tanto o excesso quanto a falta.
  • Filtrar de 3 a 4 horas por dia. Dividido em dois blocos, e sempre com o cartucho lavado, senão a vazão real é metade da nominal.
  • Passar pano na dobra e na linha de água a cada dois ou três dias. É onde o biofilme mora, e ele não sai com cloro nenhum sem ajuda mecânica.
  • Enxaguar os pés e o corpo antes de entrar. Parece frescura e é o item que mais reduz consumo de cloro numa piscina pequena.

Com essa rotina, uma inflável de 2.000 litros passa tranquilamente de duas a quatro semanas com a mesma água. Sem ela, o prazo real é de dois ou três dias no verão.

Vale marcar um limite mesmo assim. Em piscina pequena, sem retrolavagem e sem reposição regular, o estabilizante vai se acumulando e a certa altura o cloro fica lento.

Quando você perceber que precisa de dose maior pra manter a mesma leitura, é hora de esvaziar. Não é falha do tratamento, é o ciclo normal desse tipo de piscina.

E existe um caso em que o conselho de tratar não vale: piscininha de 300 litros que fica cheia só uma tarde por semana.

Ali o volume é tão pequeno que dosar com precisão vira um exercício de balança de cozinha. Esvaziar depois de usar e guardar seca é mais simples, mais barato e mais seguro.

A linha de corte, na prática, fica em torno de mil litros. Abaixo disso, esvazie. Acima, trate.

Uma última coisa sobre a hora de esvaziar, que é fácil de esquecer. Água com cloro não vai na horta nem no pé de árvore.

Deixe a piscina descoberta no sol por um dia sem repor produto, e o cloro livre cai sozinho pra perto de zero. Aí sim ela serve pra molhar planta ou lavar o quintal.

Rogério Sampaio
Rogério Sampaio

Cuida da piscina de casa desde 2014 e, de tanto acertar na tentativa e erro, virou o cara que a família e os vizinhos chamam quando a água amanhece verde. Não é técnico de piscina: o que ele tem é um caderno com dez anos de dose, prazo e resultado anotados a cada tratamento.