Quanto cloro a chuva realmente consome numa piscina descoberta

Quanto cloro a chuva realmente consome numa piscina descoberta

“A chuva comeu meu cloro” é a explicação mais repetida em piscina descoberta, e ela está quase toda errada.

Chuva, por si só, é água praticamente destilada. Ela não reage com hipoclorito, não oxida nada e não tem cloro pra devolver nem pra roubar.

O que acontece depois de uma chuva forte é outra coisa. Entra na piscina um monte de matéria orgânica que estava no telhado, no deck e no jardim, e é ela que consome o cloro em poucas horas.

Separar as duas coisas muda o que você faz na manhã seguinte. E muda quanto produto você compra por temporada.

Quanta água a chuva realmente joga na sua piscina

A conta é simples e qualquer um faz: 1 milímetro de chuva equivale a 1 litro por metro quadrado de superfície.

Uma piscina de 8 por 4 metros tem 32 m² de espelho d’água. Uma chuva de 30 mm, que já é chuva de encher rua, joga 960 litros dentro dela.

Se essa piscina tem 1,50 m de profundidade média, ela carrega perto de 48 mil litros. Os 960 litros da chuva são 2% do volume.

Diluir 2% de uma água com 3 ppm de cloro deixa ela com 2,94 ppm. É menos que a margem de erro do seu kit de gota.

Ou seja: a diluição não é o que derruba o cloro. Nem em dois dias seguidos de chuva, porque a piscina transborda e a água nova entra na mesma proporção que a velha sai.

O pH também assusta mais do que deveria. Chuva limpa fica entre 5,0 e 5,6 de pH, por causa do gás carbônico dissolvido no ar.

Parece ácido demais, mas água de chuva quase não tem alcalinidade. Ela não tem “força” pra puxar o pH de nada.

Uma piscina com alcalinidade entre 80 e 120 ppm absorve isso sem se mexer meio ponto. Quando o pH cai de verdade depois da chuva, quase sempre a alcalinidade já estava baixa antes.

De onde vem, então, o cloro que sumiu

Do que a chuva empurra pra dentro, não do que ela é.

Folha, pólen, poeira acumulada no telhado, terra do canteiro que escorre pela borda, os insetos que caem junto. Tudo isso é carga orgânica, e cloro existe pra oxidar carga orgânica.

Numa piscina cercada de árvore, uma chuva de vento derruba mais folha em vinte minutos do que uma semana inteira de dia parado.

Tem um segundo caminho, menos óbvio. A chuva carrega nitrogênio dissolvido, e nitrogênio em forma de amônia reage com o cloro livre formando cloramina.

Cloramina é aquele cloro que o teste ainda enxerga como “cloro total”, mas que desinfeta muito pouco e cheira forte.

É por isso que a piscina fica com cheiro de cloro justo quando está sem cloro de verdade. O cheiro é o subproduto, não o desinfetante.

E tem o efeito que joga a favor e ninguém conta: dia de chuva é dia nublado. Sem sol batendo, a perda de cloro por ultravioleta praticamente para.

Numa tarde de sol forte, piscina descoberta e sem estabilizante perde metade do cloro livre em poucas horas. Debaixo de nuvem, esse relógio congela.

A sequência das primeiras 24 horas depois do temporal

A ordem importa, principalmente no começo. Testar antes de dosar economiza produto e evita o erro clássico de chocar uma água que não precisava.

  1. Deixe a bomba rodando durante e depois da chuva. Muita gente desliga com medo de raio. Se o quadro está aterrado, o risco é baixo e o ganho é grande — água parada com carga orgânica dentro vira alga em um dia quente.
  2. Recolha o grosso com a peneira antes de qualquer teste. Folha no fundo continua consumindo cloro enquanto apodrece. Tirar dez folhas grandes vale mais que meio quilo de produto.
  3. Esvazie os cestos do skimmer e do pré-filtro da bomba. Depois de chuva com vento eles enchem rápido, e cesto cheio derruba a vazão sem que o manômetro do filtro acuse nada.
  4. Só então teste o cloro livre e o pH. Se o cloro caiu de 3 pra 1,5 ppm, é reposição de rotina. Se zerou, tem consumo ativo e a conversa muda.
  5. Reponha na dose de manutenção, não na de choque. Choque só se o cloro zerou, a água embaçou ou a parede ficou escorregadia ao passar a mão.
  6. Ajuste o pH depois do cloro, nunca junto. Cloro e ácido não podem se encontrar concentrados: misturados direto liberam gás cloro. Deixe a bomba circular pelo menos meia hora entre um e outro.
  7. Escove parede e fundo antes de dormir. Alga começa colada, não solta. Escovar joga ela na água, que é onde o cloro alcança.

Vale insistir na ordem dos passos 4 e 5, porque é ali que se perde dinheiro.

Chocar uma piscina de 48 mil litros gasta perto de 1 kg de hipoclorito de cálcio. Repor a manutenção gasta uns 150 gramas.

Fazer choque por reflexo toda vez que chove significa jogar produto fora seis ou oito vezes por temporada.

Isso pesa no custo de manter uma piscina por mês mais do que qualquer outro hábito de dono de casa.

Quando a chuva realmente cobra caro

Existem dois casos em que ela faz estrago de verdade. Nenhum dos dois é a diluição do cloro.

O primeiro é o transbordo prolongado. Quando a piscina passa horas vertendo pela borda, o que sai é água tratada, com o estabilizante dissolvido nela.

Ácido cianúrico não evapora e não é consumido. Ele só sai com água que vai embora.

Uma temporada de chuva pesada consegue derrubar o estabilizante de 45 pra menos de 20 ppm. Abaixo disso, o sol de verão volta a comer o cloro em poucas horas.

Aí você passa a repor todo dia sem entender o motivo. A resposta não está no cloro: está no estabilizante que foi embora pelo ladrão.

O segundo caso é a enxurrada de terra. Água barrenta entrando pela borda traz fosfato e ferro junto.

Piscina que fica com tom marrom-avermelhado depois da chuva costuma estar com ferro dissolvido, não com sujeira em suspensão.

Se o cloro oxidar esse ferro, ele mancha o revestimento. E mancha de ferro dá bem mais trabalho de tirar do que uma água turva.

Nesse caso a ordem inverte: filtra e clarifica primeiro, cloro depois.

Medir a chuva muda a rotina mais do que parece

Enquanto a chuva é “fraca”, “média” ou “aquela de ontem”, você está chutando. Com um número, dá pra prever.

Pluviômetro de plástico custa pouco e resolve. Dá até pra improvisar: garrafa PET de boca reta, cortada, com uma régua colada por fora.

A leitura em milímetros já é a resposta direta em litros por metro quadrado, sem conta nenhuma.

O que fazer com esse número é anotar ao lado do cloro do dia seguinte. Três ou quatro registros e o padrão da sua piscina aparece.

Aqui, o corte ficou em 25 mm. Abaixo disso, escovar e conferir. Acima, o cloro sempre caiu mais da metade e valeu reforçar.

Esse corte é seu, não meu. Piscina em terreno alto, sem árvore e com deck bem drenado aguenta chuva muito maior sem reclamar.

Piscina em declive, que recebe a água do quintal inteiro pela borda, sofre com 10 mm. O que decide não é a chuva: é para onde o terreno manda a enxurrada.

Capa térmica na chuva ajuda ou atrapalha

Depende do tipo de chuva, e essa é uma das poucas decisões de piscina onde o conselho padrão não vale.

Em chuva curta com vento e árvore por perto, cobrir vale muito. A capa segura folha e poeira, que é justamente o que consome cloro.

Em chuva longa, cobrir vira problema. A água empoça em cima da capa, o peso puxa as bordas pra dentro e aquela poça suja acaba escorrendo pra piscina de uma vez só quando você abre.

Tem ainda um detalhe que pega quem cobre e desliga tudo. Debaixo da capa, sem circulação e sem sol, o cloro estabilizado se mantém bem, mas a água esquenta.

Água a 30 graus consome cloro bem mais rápido que a 24. Se for cobrir por vários dias, deixe pelo menos umas horas de bomba por dia rodando.

A regra que sobrou pra mim é simples. Capa em chuva de passagem, capa fora em chuva de dois dias, e nos dois casos a bomba continua trabalhando.

Como saber, no dia seguinte, se ficou resolvido

Tem um teste caseiro que responde isso melhor que qualquer palpite, e é de graça.

Ao anoitecer, com o sol fora do jogo, meça e anote o cloro livre. Deixe a bomba rodando a noite inteira e meça de novo antes do sol nascer.

Se a perda ficou em até 1 ppm, a água está limpa e o cloro só fez trabalho de rotina.

Se perdeu mais que isso no escuro, ainda tem matéria orgânica ou alga consumindo. Aí sim o choque se justifica.

É o mesmo raciocínio que decide quanto tempo esperar pra entrar na piscina depois de aplicar cloro. O número no teste importa menos que a direção em que ele está indo.

Duas ou três chuvas medidas assim e você para de reagir por reflexo.

Passa a saber, pela intensidade da chuva e pela quantidade de árvore em volta, se aquela vai dar trabalho ou não.

Chuva rápida de verão em piscina sem árvore perto não pede nada além de escovar e conferir o pH.

Temporal em piscina cercada de mangueira pede peneira, cesto e reposição reforçada. Todo santo ano, sem exceção.

Rogério Sampaio
Rogério Sampaio

Cuida da piscina de casa desde 2014 e, de tanto acertar na tentativa e erro, virou o cara que a família e os vizinhos chamam quando a água amanhece verde. Não é técnico de piscina: o que ele tem é um caderno com dez anos de dose, prazo e resultado anotados a cada tratamento.