Existe um número certo de horas, ou cada um chuta o seu?
Se você perguntar em três lugares diferentes vai ouvir três respostas: 4 horas, 8 horas e “deixa ligada o dia todo que não erra”.
Todas podem estar certas, e todas podem estar erradas — porque a resposta não depende da piscina em geral, depende da sua.
O que decide são cinco ou seis coisas mensuráveis, e nenhuma delas é opinião. Dá pra chegar no seu número numa tarde, com fita métrica, um relógio e o teste de cloro que você já tem.
Vale dizer de saída o que esse número não é. Não é uma regra de segurança nem um limite de fabricante.
É só o tempo necessário pra filtrar e distribuir cloro na sua água, nas suas condições. Por isso muda com a estação, com o uso e até com a poda das árvores do quintal.
A regra do turnover e por onde ela falha
O ponto de partida do cálculo é o turnover: quantas vezes por dia o volume inteiro da piscina passa pelo filtro.
A referência que a maioria dos manuais usa é de uma a duas trocas por dia. Uma para piscina de pouco uso, duas para piscina cheia de gente no calor.
A conta é direta. Horas por dia igual ao volume da piscina dividido pela vazão da bomba, multiplicado pelo número de turnovers que você quer.
Uma piscina de 40 mil litros com uma bomba que move 8 mil litros por hora precisa de 5 horas pra um turnover. Dez horas pra dois.
Só que aí começa o problema. Turnover pressupõe que a água se mistura de forma perfeita, e ela não se mistura.
Parte da água volta pro filtro várias vezes enquanto outra parte fica parada num canto. Na prática, um turnover completo filtra em torno de 60% a 70% da água, não 100%.
É por isso que existe piscina com 10 horas de bomba por dia e alga na quina da escada. E existe piscina com 5 horas que fica impecável.
O turnover dá o piso do cálculo. O resto do checklist ajusta ele pra sua realidade.
Os dois números que a conta exige: volume e vazão
A vazão que a bomba realmente entrega
Quase ninguém tem a curva do fabricante à mão, então vale trabalhar com faixa.
Em instalação residencial típica, com mangueira curta e filtro limpo, é razoável contar com estes números aproximados:
- Bomba de 1/3 cv: por volta de 5 a 6 mil litros por hora
- Bomba de 1/2 cv: por volta de 7 a 9 mil litros por hora
- Bomba de 3/4 cv: por volta de 11 a 13 mil litros por hora
- Bomba de 1 cv: por volta de 14 a 17 mil litros por hora
São faixas, não medidas. A vazão real cai conforme a tubulação é longa, tem curva demais ou o filtro está sujo.
Duas coisas derrubam esse número mais do que se imagina. A primeira é o filtro carregado, que pode tirar um terço da vazão sem você notar.
A segunda é restrição na sucção — cesto do skimmer cheio, pré-filtro da bomba entupido ou registro meio fechado. Aí a bomba trabalha, faz barulho e move pouca água.
Se você quer um número menos chutado, existe um jeito caseiro. Feche a reposição, marque o nível exato, abra o registro de esgoto por 10 minutos cronometrados e meça quanto o nível baixou.
Multiplique a área do espelho d’água pela queda em metros e você tem o volume que passou. Vezes seis, tem a vazão por hora.
Não é laboratório, mas erra bem menos que adivinhar.
Vale ainda olhar a tubulação. Cada metro de cano e cada joelho de 90 graus cobram um pedaço da vazão.
Instalação com a casa de máquinas a quinze metros da piscina e quatro curvas no caminho entrega bem menos que a mesma bomba com o filtro colado na borda.
Se a sua casa de máquinas fica abaixo do nível da água, a bomba trabalha com a ajuda da gravidade e vai melhor. Se fica acima, ela perde fôlego e escorva com mais dificuldade.
O volume, que quase todo mundo erra pra menos
Esse item vem antes de qualquer coisa, porque um erro aqui contamina o cálculo inteiro.
Para piscina retangular, é comprimento vezes largura vezes profundidade média, em metros. O resultado em metros cúbicos vezes mil dá os litros.
A profundidade média é onde mora o erro. Piscina com fundo em declive, de 1,20 na parte rasa e 1,80 na funda, tem média 1,50 — não 1,80.
Piscina de canto arredondado ou formato livre pede um desconto. Meça o retângulo que a contém e tire de 10% a 15%.
Anote esse número em algum lugar fixo, tipo dentro da tampa do abrigo da bomba. Você vai usar ele em toda dosagem de produto pelo resto da vida da piscina.
O checklist que fecha o número da sua piscina
São sete itens. Cada um empurra as horas pra cima ou pra baixo a partir do piso do turnover.
- Temperatura da água. Acima de 28 graus, alga cresce rápido e o cloro é consumido mais depressa. Água morna pede mais circulação; água a 22 graus perdoa bastante.
- Sombra e árvore em volta. Piscina embaixo de árvore recebe folha e pólen todo dia. Isso é carga orgânica constante e justifica horas a mais, mesmo no inverno.
- Quantidade de banhista. Cada pessoa na água entra com protetor solar, suor e oleosidade. Piscina de fim de semana com dez pessoas precisa de um dia de circulação reforçada depois.
- Diferença de pressão no manômetro. Se a pressão de hoje está bem acima da pressão com o filtro recém-limpo, a vazão caiu e as horas atuais já não entregam o turnover que entregavam.
- Direção dos retornos. Retorno apontado pra cima faz a água girar só na superfície. Apontado pra baixo e levemente de lado, ele cria rotação e alcança o fundo.
- Presença de ponto morto. Jogue um punhado de folha seca na superfície e observe onde ela para. Aquele canto é onde a alga vai começar, e nenhuma hora extra resolve — resolve mudar o ângulo do retorno.
- Comportamento do cloro à noite. Meça o cloro ao anoitecer e de novo antes do sol nascer, com a bomba rodando. Perda de até 1 ppm é normal; mais que isso indica sujeira ativa que a filtragem atual não está dando conta.
O teste da folha seca merece um comentário à parte, porque é o mais revelador da lista e ninguém faz.
Você joga um punhado na superfície com a bomba rodando e volta em vinte minutos. Se as folhas se juntaram todas no skimmer, a circulação está boa.
Se metade ficou girando devagar no meio ou parada num canto, aquele pedaço da piscina simplesmente não está sendo filtrado.
Corrigir isso costuma ser gratuito. Basta girar o bico do retorno uns 30 graus e refazer o teste no dia seguinte.
Repare que só um desses itens é sobre o equipamento. Os outros seis são sobre o ambiente e o uso.
Piscinas idênticas, uma em Curitiba com sombra e outra em Cuiabá no sol aberto, não têm o mesmo número. Nem de longe.
Traduzindo o checklist em horas
Uma forma prática de usar isso é começar pelo piso e ir ajustando por evidência, não por medo.
Comece com o cálculo de um turnover. Rode isso por uma semana e observe.
Se a água ficou cristalina, o cloro se manteve estável e nenhum canto criou aquele véu, você achou seu número. Pode até tentar cortar meia hora e observar de novo.
Se apareceu turvação leve no fim da semana, some 1 hora e observe mais uma semana. Turvação é quase sempre falta de filtragem, não falta de cloro.
Se apareceu alga em ponto específico, não aumente as horas primeiro. Ajuste o retorno e escove aquele ponto por três dias seguidos.
Se o cloro sumia mesmo com dose certa, o problema pode não ser tempo de bomba — vale checar o estabilizante antes de gastar energia à toa.
Vale acompanhar um exemplo inteiro, do jeito que a conta acontece na vida real.
Piscina de 8 por 4 metros, profundidade média de 1,50 m. Isso dá 48 metros cúbicos, ou 48 mil litros.
Bomba de 1/2 cv, tubulação curta, filtro em dia. Chute conservador de vazão: 7.500 litros por hora.
Um turnover pede 6,4 horas. Arredonde pra 6 horas e meia e comece por aí.
Agora os ajustes. É piscina descoberta, no sol, com duas árvores a cinco metros e uso de fim de semana com gente.
Na primeira semana de verão a água ficou boa até sexta e embaçou no domingo à noite. Isso não é falta de cloro: é excesso de carga no dia de uso.
A correção que funcionou não foi somar hora todo dia. Foi manter 6 horas e meia de segunda a sexta, e subir pra 9 horas no sábado e no domingo.
No inverno, a mesma piscina rodou 3 horas e meia e ficou impecável. É o mesmo equipamento, com quase metade do gasto.
No verão brasileiro, a maioria das piscinas residenciais de 30 a 50 mil litros acaba parando entre 6 e 8 horas por dia. No inverno, entre 3 e 4 horas resolve na maior parte do país.
Um alerta pro inverno: não desligue de vez. Piscina com bomba parada por semanas vira caldo, e recuperar custa mais caro que os meses de energia economizada.
Em que horário rodar, que muda mais que a quantidade
Duas piscinas com 6 horas de bomba podem terminar o dia bem diferentes, dependendo de quando essas 6 horas aconteceram.
O sol do meio-dia é o momento de maior consumo de cloro e maior atividade de alga. Rodar a bomba nesse intervalo mantém o cloro distribuído justo quando ele mais é exigido.
Também é quando o skimmer trabalha melhor, porque a maior parte da sujeira flutuante ainda está na superfície e não afundou.
Por outro lado, em boa parte do Brasil a tarifa de energia tem horário de ponta no fim da tarde, entre 18h e 21h. Se a sua conta tem bandeira ou tarifa branca, esse pedaço custa bem mais caro.
A configuração que costuma equilibrar as duas coisas é dividir em dois blocos. Um bloco maior entre 10h e 15h, outro menor de madrugada.
Dividir tem uma vantagem extra: a água não fica dez horas parada seguidas, que é quando o ponto morto vira mancha verde.
Tem uma exceção importante pra essa regra. Se a piscina ficou verde e você está em recuperação, esqueça horário e economia.
Durante um tratamento de choque, a bomba fica 24 horas ligada até a água clarear, e o filtro é limpo várias vezes ao dia. São dois ou três dias assim, e não tem atalho.
E existe um caso em que a lógica do horário inverte por completo: piscina com aquecimento solar.
Ali a bomba é quem empurra a água pelas placas no telhado, então ela precisa rodar exatamente quando o sol está batendo forte, das 10h às 16h.
Rodar de madrugada nesse caso é pior que não rodar: a água circula pelas placas frias e volta perdendo calor em vez de ganhar.
Quem tem aquecimento solar com controlador automático nem deve mexer nisso na mão. O controlador liga a bomba quando o sensor do telhado está mais quente que a água, e é ele quem manda.
Automatizar sem susto no quadro elétrico
Timer é o jeito mais barato de garantir que as horas planejadas realmente aconteçam.
Antes de qualquer coisa: desligue o disjuntor do circuito da bomba antes de abrir qualquer caixa.
Se o timer precisar ser ligado direto na rede, isso é serviço de eletricista. Bomba de piscina fica em área molhada, e aterramento ali não é detalhe.
Existem duas famílias de timer. O analógico de pinos, que custa pouco e resolve, e o digital, que aceita mais de um bloco por dia e é o que serve pra estratégia de dois períodos.
O detalhe que pega quem instala sozinho é a corrente. O timer precisa suportar a corrente de partida do motor, que é várias vezes maior que a de trabalho.
Timer subdimensionado solda o contato interno e a bomba passa a ficar ligada pra sempre, sem você perceber. É o defeito mais comum e o mais silencioso.
Vale ver com calma o efeito real do timer na conta de luz antes de comprar, porque a economia depende bem mais das horas que você corta do que do aparelho em si.
Quanto cada hora custa na conta de luz
Aqui a conta é fácil e vale fazer com os seus números, porque a diferença entre regiões é grande.
Uma bomba de 1/2 cv tem 368 watts de potência de saída. Com as perdas do motor, o consumo real na tomada costuma ficar entre 500 e 600 watts.
Arredondando pra 0,55 kW, oito horas por dia dão 4,4 kWh por dia. No mês, algo perto de 132 kWh.
Com tarifa residencial na casa de R$ 0,90 por kWh, isso dá aproximadamente R$ 119 por mês só de bomba. A tarifa varia bastante por distribuidora e por bandeira, então use a do seu boleto.
Agora o que interessa: cada hora a menos por dia corta cerca de 16,5 kWh no mês, ou uns R$ 15.
Cortar duas horas por dia numa piscina que estava rodando à toa devolve uns R$ 30 por mês. Não é fortuna, mas é uma pizza sem esforço nenhum.
Cuidado com o corte cego, porém. Se a economia trouxer água turva e você precisar de um choque a mais por mês, o produto come a economia inteira e ainda sobra prejuízo.
E não caia na tentação de trocar por uma bomba maior pra rodar menos horas. Essa conta parece boa no papel e não fecha na prática.
A perda de carga da tubulação cresce com o quadrado da vazão. Dobrar a vazão numa canalização feita pra bomba pequena multiplica a resistência por quatro.
O motor puxa muito mais energia pra entregar bem menos ganho de vazão do que o catálogo promete. Fora que bomba superdimensionada empurra areia através do filtro e faz mais barulho.
Bomba de velocidade variável e a matemática que muda tudo
Essa é a única mudança de equipamento que altera de verdade a resposta da pergunta do título.
Bomba comum tem uma velocidade só: ou está no máximo ou está desligada. Bomba de velocidade variável permite rodar em rotação reduzida.
O ponto interessante está na física do motor. A vazão cai proporcional à rotação, mas a potência cai com o cubo dela.
Na prática: rodar a metade da rotação move metade da água, e consome perto de um oitavo da energia por hora.
Como você precisa do dobro do tempo pra mover o mesmo volume, o consumo total do dia cai pra algo em torno de um quarto do original.
Traduzindo pro exemplo de antes: os R$ 119 mensais viram algo entre R$ 30 e R$ 45, com a mesma filtragem.
Tem ainda um ganho que não aparece na conta. Água passando devagar pelo filtro de areia é filtrada melhor, porque as partículas têm tempo de assentar entre os grãos.
E o barulho cai bastante, o que faz diferença em piscina colada na varanda ou perto do quarto do vizinho.
O contra é o preço de entrada, várias vezes o de uma bomba comum. Vale a pena em piscina grande, que roda muitas horas, e demora a se pagar em piscina pequena de uso esporádico.
Antes de comprar, confira uma coisa boba que trava muita instalação: o espaço no abrigo.
Bomba de velocidade variável costuma ser mais alta por causa do painel de controle em cima do motor. Em casa de máquinas apertada, isso vira problema de tampa que não fecha.
Perguntas que aparecem sempre
Deixar a bomba ligada 24 horas estraga alguma coisa?
Não estraga o motor, que é feito pra trabalho contínuo. Estraga o bolso e acelera o desgaste do selo mecânico e dos rolamentos, que trabalham em horas de uso.
Só faz sentido em recuperação de água verde ou em piscina de uso comercial. Em piscina de casa é dinheiro jogado fora.
Posso desligar a bomba enquanto tem gente na piscina?
Pode, e às vezes é até mais confortável pelo barulho. Só não vire hábito em dia de muita gente na água.
Justamente nesse dia a carga de sujeira é maior, e a filtragem faz mais falta. Se desligar durante o banho, compense rodando algumas horas depois que todos saírem.
E se eu não souber a potência da bomba?
A placa fica colada no corpo do motor, geralmente do lado oposto ao pré-filtro. Se estiver ilegível, o modelo costuma estar gravado na carcaça.
Se aparecer barulho estranho junto com a dúvida, vale olhar antes as causas mais comuns de barulho na bomba, porque bomba forçada consome mais e move menos.




