Manchas no revestimento da piscina e o que cada cor indica

Manchas no revestimento da piscina e o que cada cor indica

A primeira mancha que me deu trabalho de verdade era marrom, do tamanho de uma mão, no segundo degrau da escada.

Escovei com força, achei que era sujeira. Não saiu. Joguei uma dose caprichada de cloro, esperei dois dias e ela ficou mais escura.

Só depois eu descobri que tinha feito exatamente a coisa errada, e que a cor da mancha já vinha me dizendo isso desde o começo.

Mancha de piscina não é sujeira. É reação química, e cada família de reação deixa uma cor característica. Ler a cor certa poupa semanas de tentativa e erro.

A cor da mancha e o que ela costuma denunciar

Antes de qualquer produto, olhe e classifique. Essa lista cobre a esmagadora maioria dos casos em piscina residencial.

  • Marrom ou cor de ferrugem. Ferro. Vem de água de poço, de tubulação galvanizada velha ou de um objeto metálico esquecido no fundo — grampo de cabelo, moeda, parafuso.
  • Azul-esverdeada em revestimento claro. Cobre. Quase sempre algicida à base de cobre usado em excesso, ou trocador de calor sendo corroído por água com pH baixo.
  • Roxa ou violeta no rejunte e na linha d’água. Manganês reagindo com estabilizante alto. É típica de quem enche a piscina com água de poço e usa muita pastilha.
  • Verde-escura ou preta em pontos fixos. Alga com raiz, alojada no poro do rejunte. Não é o verde solto da água, é ponto que fica onde está.
  • Amarela ou cor de mostarda na sombra. Alga mostarda. Sai fácil na escova, e volta no mesmo lugar em três dias.
  • Marrom-avermelhada embaixo de árvore. Tanino de folha. Folha de amora, jabuticabeira e ipê deixam esse rastro em uma noite.
  • Branca e áspera. Não é mancha, é incrustação de cálcio. Se raspa com a unha e deixa pó, é essa.

Existe um atalho para separar os dois grandes grupos, e ele custa quase nada.

Pegue uma pastilha de cloro e esfregue direto sobre a mancha por uns 30 segundos, com a piscina baixa ou com o braço mesmo. Se clarear na hora, é orgânica.

Se não mudar nada, faça o teste inverso: esmague um comprimido de vitamina C sobre a mancha. Se ela clarear, é metal.

Esses dois testes de dois minutos decidem todo o resto do tratamento. Pular eles é o que faz gente ficar meses jogando produto errado.

Por que a mancha de metal escurece quando você joga cloro

Aqui está o motivo do meu erro no degrau.

Ferro, cobre e manganês ficam dissolvidos na água enquanto estão na forma reduzida. Nesse estado eles são invisíveis e o teste de cloro não acusa nada.

Cloro é oxidante. Quando você joga uma dose de choque, ele oxida esses metais, que saem da solução e se depositam na superfície mais próxima. Vira mancha.

Ou seja: o choque não removeu nada, ele revelou o que já estava na água. Por isso a mancha ficou mais forte no segundo dia.

Esse é o caso clássico em que o conselho padrão de piscina — “na dúvida, chocar” — piora o problema em vez de resolver.

Se a sua piscina é abastecida por poço, ou se você acabou de completar com muita água nova, a probabilidade de ser metal sobe bastante.

De onde o metal entra na água da piscina

Vale rastrear a origem, porque tratar a mancha sem cortar a fonte é trabalho que se repete todo ano.

A entrada mais comum é a água de reposição. Poço artesiano no interior de São Paulo, de Minas e do Centro-Oeste costuma carregar ferro, e às vezes manganês junto.

Um filtro de entrada simples na mangueira de completar já segura boa parte disso. Custa uma faixa de R$ 80 a R$ 250 dependendo do modelo e da região.

A segunda entrada é o próprio equipamento. Trocador de calor com serpentina de cobre, quando a água fica com pH abaixo de 7,0 por semanas, é corroído e solta cobre na piscina.

Também conta o algicida. Muito algicida vendido como “de choque” tem cobre na fórmula, e uso repetido acumula até manchar rejunte e degrau.

A terceira entrada é banal e dá o maior susto: objeto metálico esquecido no fundo. Um grampo de cabelo deixa uma auréola marrom em três dias em cima do azulejo.

Por isso a inspeção visual do fundo, antes de qualquer tratamento, evita constrangimento. Já vi gente tratar quimicamente a piscina inteira por causa de uma tampinha de lata.

Como tratar cada tipo, na ordem certa

Antes de mexer em qualquer produto, uma regra que não tem exceção: cloro e ácido nunca são misturados no balde nem despejados juntos. A reação libera gás cloro.

Para mancha orgânica, o caminho é direto. Escova de cerda dura no ponto, choque de cloro em dose tripla com a bomba ligada e nova escovação 24 horas depois.

Alga com raiz precisa de teimosia: escovar a cada dois dias por uma semana, porque a raiz sobrevive à primeira rodada e se recompõe.

Para mancha de metal, o roteiro é o oposto. Primeiro deixe o cloro cair para perto de zero, o que leva de 1 a 3 dias com a piscina descoberta.

Com o cloro baixo, entra o ácido ascórbico. A referência comum é algo em torno de 100 a 150 g para cada 10 mil litros, dissolvido e espalhado com a bomba rodando.

A mancha some rápido, às vezes em minutos, e isso engana. O metal voltou para a água dissolvido, e ainda está lá.

Por isso a etapa seguinte é obrigatória: dosar sequestrante de metais e só então repor o cloro devagar, ao longo de dois ou três dias.

Para incrustação de cálcio, não existe produto que resolva na água. É remoção mecânica com pedra própria ou aplicação pontual de ácido diluído, e depois correção da dureza.

Se a incrustação está na linha d’água em forma de faixa branca contínua, o número a olhar é a dureza cálcica. Acima de 400 ppm ela deposita com facilidade.

Nesse caso a solução de verdade é troca parcial de água, não produto. Trocar 30% do volume derruba a dureza na mesma proporção, e nada além disso faz efeito.

Já a mancha de tanino de folha responde bem ao choque, mas exige que a folha saia primeiro. Escovar por cima de folha grudada só espalha a mancha para o lado.

Os erros que transformam mancha em prejuízo

O primeiro é aplicar ácido muriático puro direto no revestimento para “clarear”. Ele tira a mancha e tira o brilho do azulejo junto, num quadrado que nunca mais some.

O segundo é escova de aço em vinil ou fibra. Risca de vez, e risco funciona como âncora para a próxima mancha.

O terceiro é esvaziar a piscina para limpar. Piscina de vinil vazia encolhe a manta ao sol, e piscina de fibra em terreno úmido pode estufar de baixo para cima.

O quarto é ignorar a causa. Tirar a mancha de ferro sem instalar filtro de entrada ou sem usar sequestrante é garantir que ela volte na próxima chuva forte.

E tem o erro silencioso: escovar sempre com o mesmo produto sem nunca ter feito o teste da pastilha. Metade das manchas tratadas como alga nunca foram alga.

Um quinto, menos óbvio, é tratar mancha com a filtragem no ritmo normal. Todo tratamento de mancha pede a bomba rodando mais horas, senão o produto nem circula direito.

E o sexto é a pressa. Depois do ácido ascórbico, quem repõe cloro em dose cheia no mesmo dia reoxida o metal e vê a mancha voltar exatamente onde estava.

Quando parar e chamar quem entende

Tem hora que insistir sai mais caro que pagar uma visita técnica.

Se a mancha voltou três vezes depois de tratamento completo, o problema não está na superfície. É a fonte de água ou o equipamento soltando metal.

Se ela está em piscina de fibra e o gelcoat já parece opaco ou poroso ao redor, pare. Gelcoat comprometido não se resolve com produto de água.

Se o tratamento exige esvaziar, chame profissional mesmo em alvenaria. Existe ordem de esvaziamento, checagem de lençol freático e tempo máximo com a piscina seca.

E se você não consegue nem classificar a cor com segurança, uma análise de água completa em loja especializada custa pouco e mede ferro, cobre e dureza de uma vez.

Perguntas que aparecem sempre

Dá para tirar mancha sem esvaziar a piscina?

Na maioria dos casos sim. Mancha orgânica e mancha de metal são tratadas com a piscina cheia. Só incrustação pesada de cálcio e reforma de rejunte pedem a piscina baixa.

Quanto tempo demora para a mancha sumir depois do tratamento?

Mancha orgânica clareia em 24 a 48 horas depois do choque. Mancha de metal com ácido ascórbico some em minutos, mas o processo completo, com sequestrante e retorno do cloro, leva de 3 a 5 dias.

Por que ela volta sempre no mesmo lugar?

Porque ali existe uma imperfeição: rejunte poroso, risco no vinil, um degrau que fica na sombra. A superfície irregular segura o depósito antes de qualquer outra.

Quando é sempre o mesmo ponto, vale olhar a geometria também. Canto morto, atrás da escada e embaixo do trampolim recebem pouca circulação de água.

Redirecionar o retorno para bater nessa região resolve mais que qualquer produto, e não custa nada além de girar o bico com a mão.

Rogério Sampaio
Rogério Sampaio

Cuida da piscina de casa desde 2014 e, de tanto acertar na tentativa e erro, virou o cara que a família e os vizinhos chamam quando a água amanhece verde. Não é técnico de piscina: o que ele tem é um caderno com dez anos de dose, prazo e resultado anotados a cada tratamento.