Levei quase dois meses pra aceitar que aquelas pintinhas escuras no degrau não eram mancha do revestimento.
Eram seis pontos pretos, do tamanho de cabeça de alfinete, sempre no mesmo canto do degrau raso. Sempre na parte que fica na sombra da amoreira do vizinho depois das duas da tarde.
Eu escovava com força. Sumia por um dia. Na quinta-feira estava tudo lá de novo, no mesmo lugar.
Isso se repetiu umas quinze vezes ao longo de um verão inteiro. Até eu entender uma coisa simples.
Escovar não é o tratamento. Escovar é só o que abre a porta pro tratamento entrar.
Por que a alga preta não morre como a verde morre
Alga verde some com choque de cloro em 24 ou 48 horas. Todo mundo que tem piscina já viu isso funcionar.
Com a preta não funciona, e o motivo não é o cloro estar fraco. É que ela não é bem uma alga.
O que a gente chama de alga preta é uma cianobactéria. Ela cresce em colônia e produz por cima de si mesma uma camada gelatinosa de proteção.
Essa camada segura cloro do lado de fora. O ponto preto que você enxerga é o topo da colônia, não a colônia inteira.
A outra metade do problema fica embaixo. A colônia manda estruturas de fixação pra dentro do poro do revestimento e pra dentro do rejunte.
Por isso ela some quando você escova e volta no mesmo milímetro dias depois. Você tirou a cabeça e deixou a raiz.
É também por isso que ela é problema de piscina de alvenaria, azulejo e pastilha, e é rara em fibra e vinil. Superfície lisa e sem rejunte não dá onde ancorar.
Se a sua é de vinil ou fibra e você jura que tem alga preta, olhe de perto antes de comprar produto. Mancha escura nesses revestimentos quase sempre é outra coisa, e vale conferir o que cada cor de mancha indica.
O teste caseiro resolve. Passe a unha no ponto.
Se levantar um pouquinho e virar pó verde-escuro na água, é alga. Se não sair nada e a superfície continuar lisa, é mancha química ou metálica.
Onde ela se instala e por que é sempre o mesmo canto
Alga preta é preguiçosa. Ela só pega onde a água praticamente não se move.
Nas três piscinas em que já lidei com isso, os pontos estavam sempre nos mesmos lugares. Degrau, canto do fundo mais longe do retorno, embaixo da escada de inox e na linha de rejunte junto ao ralo.
Nenhum recebe jato de retorno. E nenhum pega sol o dia inteiro.
É por isso que ela aparece em piscina bem tratada. Não é falta de cloro na água em geral, é falta de cloro naquele canto específico.
Vale olhar três coisas antes de culpar a química. A primeira é a direção dos bicos de retorno.
Se eles apontam pra cima ou pro meio da piscina, o fundo não circula. Girar o bico pra baixo e um pouco de lado cria um giro na piscina inteira.
A segunda é o tempo de bomba. Piscina que filtra três horas por dia no verão não completa nem um ciclo de volume, e o canto morto nunca troca de água.
A terceira é o estado do rejunte. Rejunte falhado é abrigo pronto, e a alga entra ali antes de aparecer em qualquer outro lugar.
Se o seu está esfarelando ou já saiu em algum trecho, isso vem antes do tratamento. Entender o que faz o rejunte soltar evita que você mate a alga e ela volte pelo mesmo buraco.
O número que decide se o choque vai funcionar
Antes de comprar qualquer coisa, meça o ácido cianúrico. Esse é o passo que quase todo mundo pula.
O cianúrico é o estabilizante que protege o cloro do sol. Ele é necessário, mas em excesso ele também protege o cloro de fazer o trabalho.
A faixa confortável fica entre 30 e 50 ppm. De 80 pra cima o cloro começa a ficar lento de verdade.
Em piscina que usa pastilha de tricloro o ano inteiro, passar de 100 ppm é comum. Nesse cenário você joga choque a semana toda e não mata nada.
Já vi esse caso duas vezes, e nas duas o dono achava que o problema era a marca do cloro. Era acúmulo de estabilizante, e a única saída foi trocar parte da água.
Se a sua medição vier alta, resolva isso primeiro. O caminho está em ácido cianúrico acumulado e o tratamento que para de funcionar.
O segundo número é o pH. Acima de 7,8 a fração ativa do cloro cai bastante, e alga preta já é difícil com o cloro no auge.
Deixe entre 7,2 e 7,4 durante o tratamento. É o intervalo em que o cloro trabalha forte sem atacar o revestimento.
A sequência que funcionou aqui em casa
A ordem importa mais que o produto. Trocar a ordem é o motivo número um de tratamento que não pega.
Primeiro eu escovo, com a bomba desligada e a piscina parada. Escovar com a bomba ligada espalha esporo pela piscina inteira.
A escovação tem que ser agressiva no ponto, não na área. São uns quinze ou vinte segundos por ponto, apertando de verdade.
O objetivo não é limpar, é rasgar a camada de proteção.
Só depois disso eu aplico o choque, com a piscina ainda parada. Diluo o cloro num balde com água e despejo devagar em cima de cada ponto escovado.
Aqui vale um aviso seco: nunca misture cloro e ácido no mesmo balde. A mistura libera gás cloro, e isso manda gente pro hospital todo verão.
Deixo a bomba desligada por uns quarenta minutos depois de aplicar. O cloro concentrado fica assentado em cima da colônia em vez de ser levado embora.
Aí sim ligo a filtragem e deixo rodando o resto do dia e a noite inteira. Nas primeiras 48 horas eu não desligo a bomba.
Pra alga preta o choque precisa ser mais alto do que o de rotina. Enquanto alga verde cede com uns 10 ppm de cloro livre, aqui a faixa que resolve fica perto de 20 a 30 ppm.
Isso é muito cloro, e tem consequência prática. Ninguém entra na piscina até a leitura cair abaixo de 4 ppm, o que costuma levar de dois a quatro dias.
E o mais importante: repita a escovação todo dia, não a cada três.
Cada colônia que sobreviveu refaz a camada de proteção em cerca de 24 horas. Escovar diariamente não deixa ela terminar o serviço.
Nos meus seis pontinhos, o ciclo completo levou nove dias. No quinto dia ainda tinha vestígio cinzento, o que me fez achar que não estava funcionando.
Não desista no quinto dia. Esse é exatamente o dia em que a maioria desiste e recomeça do zero um mês depois.
Escova de aço, de nylon e o que cada revestimento aguenta
A escova de nylon que veio com o kit não fura a camada da alga preta. Ela alisa e passa por cima.
Em piscina de alvenaria, azulejo, pastilha ou concreto, use escova com cerdas de aço inox. É ela que rasga.
Cerda de aço carbono, não: ela solta partícula que enferruja e vira mancha alaranjada.
Em vinil e em fibra, escova de aço está fora de discussão. Ela risca o gelcoat e rasga o liner, e esse conserto é muito mais caro que a alga.
Nesses dois casos a saída é escova de nylon rígida e paciência, mais o produto agindo por mais tempo.
Tem um atalho que funciona bem em revestimento duro e que precisa de aviso junto. É esfregar uma pastilha de tricloro seca direto no ponto, com a piscina parada.
O tricloro é ácido e concentrado, e ali ele age como um lápis de cloro puro sobre a colônia. Use luva, e nunca deixe a pastilha esquecida no fundo.
Pastilha parada no fundo por horas descolore azulejo, come rejunte e estraga vinil na hora. Esfregue, e tire.
Sobre algicida, vale saber o que você está comprando. Os de amônio quaternário, que são os mais baratos e fazem espuma, não dão conta de alga preta.
Os que têm efeito real nela são os à base de cobre quelatado. Funcionam, mas mancham de azul-esverdeado se o pH estiver alto ou se a água tiver ferro.
Corrija o pH antes de aplicar cobre. Nessa ordem, e não na inversa.
Os erros que fazem ela voltar em três semanas
O primeiro é escovar depois do choque em vez de antes. Você joga o produto em cima da armadura e ela nem sente.
O segundo é escovar com a bomba ligada. Você semeia a piscina inteira e no mês seguinte tem pontos em lugares novos.
O terceiro é parar quando o ponto some da vista. O visível é a superfície, e a fixação continua viva dentro do poro por mais alguns dias.
Trate pelo menos três dias além do dia em que sumiu. Esse excesso é o que separa resolver de adiar.
O quarto é ignorar os acessórios. Aspirador, mangueira flutuante, escova, boia e brinquedo carregam colônia de um canto pro outro.
Deixe tudo de molho numa bacia com água bem clorada por algumas horas durante o tratamento. Já vi reinfecção que veio de mangueira de aspiração guardada enrolada e úmida.
O quinto é retrolavar no meio do tratamento. O filtro está segurando esporo, e a retrolavagem no dia errado joga fora justamente o cloro alto que você acabou de pagar.
O que eu mudei pra não repetir a história
Girei os dois bicos de retorno pra baixo, apontando na mesma direção. Isso criou uma circulação circular que chega ao degrau, que era o ponto morto.
Aumentei a filtragem de seis pra oito horas no verão, em dois blocos, um de manhã e outro no fim da tarde.
Passei a escovar o degrau e os cantos toda semana, mesmo sem nada aparecendo. Leva dois minutos e não deixa biofilme se estabelecer.
E podei o galho da amoreira que fazia sombra ali. Foi a intervenção mais barata das quatro, e provavelmente a que mais pesou.
Sobre custo, dá pra falar em ordem de grandeza. A escova de inox fica em algumas dezenas de reais e dura anos.
O algicida de cobre é a parte mais cara, e nem sempre é necessário. Perto de esvaziar e reencher, ainda é dinheiro nenhum.
A hora de parar de tratar e chamar alguém
Tem um ponto em que insistir sai mais caro do que resolver.
Se você já fez dois ciclos completos de choque, com escovação diária, e a alga preta volta no mesmo ponto em menos de três semanas, o problema deixou de ser química.
Quase sempre é o revestimento. Rejunte falhado, pastilha solta ou fibra com microfissura.
A colônia está morando dentro do material, e cloro nenhum alcança lá. Isso é serviço de quem faz recuperação de revestimento.
Vale o mesmo se a piscina tem gerador de sal ou aquecedor e você precisaria mexer na parte elétrica pra desligar o sistema durante o tratamento. Rede elétrica é serviço de eletricista.
Perguntas que aparecem sempre
Dá pra tratar alga preta sem esvaziar a piscina?
Na esmagadora maioria dos casos sim. Esvaziar costuma ser conselho de quem vai cobrar pelo serviço de esvaziar.
O caso em que isso entra na conta é outro: revestimento em ruína, rejunte solto em vários trechos e alga espalhada por metros quadrados. Aí o problema é obra, não química.
Posso usar a piscina durante o tratamento?
Não nos primeiros dias. Com o cloro livre acima de 4 ppm, ninguém entra.
Depois que a leitura cai pra faixa normal, entre 1 e 3 ppm, pode usar mesmo que ainda reste vestígio de alga. Só continue escovando todo dia.
Alga preta faz mal pra quem nada na piscina?
O ponto em si não ataca ninguém. O que preocupa é o que ele significa: existe uma zona da piscina onde o cloro não está chegando.
Onde cloro não chega, outros microrganismos também se acomodam. É por isso que vale tratar mesmo quando são só seis pontinhos num degrau.




