Rejunte da piscina soltando, o que costuma causar

Rejunte da piscina soltando, o que costuma causar

Por que o rejunte da piscina sai em pedaço quando você passa a unha nele?

A cena costuma ser essa: você aspira a piscina numa manhã de sábado e vê grãos claros no fundo, parecendo areia grossa. No dia seguinte tem mais.

Passa a mão na junta entre as pastilhas e ela cede. Em alguns pontos já dá para enfiar a ponta do dedo no vazio entre uma peça e outra.

Rejunte não solta por acaso e quase nunca solta porque “é velho”. Na maioria dos casos existe uma causa ativa, ainda funcionando, e ela vai comer o rejunte novo também.

Onde ele solta primeiro e o que isso já entrega

Antes de qualquer produto, olhe o padrão. O lugar onde o rejunte cede diz quase tudo sobre a causa.

Se está soltando na linha da água, naquela faixa de dois ou três dedos onde a superfície bate, o problema tende a ser químico. É ali que a água trabalha mais e onde o produto recém-dosado circula concentrado.

Se está soltando em manchas espalhadas pelo fundo, principalmente perto do degrau ou embaixo do trampolim, suspeite de produto químico depositado. Alguém andou jogando granulado seco ali.

Se existe uma linha reta atravessando várias pastilhas, com o rejunte aberto igual em todo o comprimento, isso não é problema de rejunte. É movimentação estrutural, e o rejunte só está mostrando.

Se está saindo de forma uniforme na piscina inteira, sem preferência de lugar, o mais provável é que o material aplicado na obra não era próprio para imersão contínua.

E se solta sempre junto com um pó branco fino, que deixa a água meio leitosa depois de escovar, você está vendo cálcio sendo dissolvido, e isso tem nome e tem medida.

A causa que quase ninguém investiga: água faminta de cálcio

Esse é o motivo mais comum de rejunte se desmanchando em piscina residencial, e é o que menos aparece nas conversas.

Rejunte cimentício é, em boa parte, cimento. Cimento é cheio de cálcio. Água com pouco cálcio dissolvido tende a buscar cálcio onde encontrar, e o rejunte é a fonte mais fácil.

Isso acontece quando três números estão baixos ao mesmo tempo: pH abaixo de 7,0, alcalinidade abaixo de 80 ppm e, principalmente, dureza cálcica abaixo de uns 150 ppm.

A faixa saudável de dureza cálcica em piscina fica entre 200 e 400 ppm. Muita gente nunca mediu esse valor na vida, porque o teste caseiro comum só traz cloro e pH.

Piscina abastecida com água muito mole, o que é comum em várias regiões, começa a vida com dureza baixíssima. Se ainda por cima o dono corrige pH com ácido toda semana, a água fica francamente agressiva.

O resultado aparece em uma ou duas temporadas: rejunte poroso, arenoso, saindo com a escova. E é um processo que continua acontecendo depois de qualquer reparo, se ninguém mexer nos números.

A boa notícia é que corrigir é barato. Elevador de dureza, que é basicamente cloreto de cálcio, resolve, e a manutenção depois é só não deixar o pH morar abaixo de 7,0.

Os outros motivos que aparecem na prática

Fora a água agressiva, a lista é curta e bem reconhecível.

  • Cloro granulado jogado seco. O granulado afunda, encosta no rejunte e fica ali dissolvendo em concentração altíssima por horas. Marca o ponto para sempre.
  • Ácido despejado sem diluir. Mesmo efeito, mais rápido. Ácido concentrado num canto sem circulação come rejunte em uma aplicação só.
  • Rejunte de obra errado. Rejunte cimentício comum, de banheiro, não foi feito para viver submerso e sob ataque químico. Em piscina, degrada de forma generalizada.
  • Cura interrompida. Piscina enchida cedo demais depois do assentamento não deixa o material curar. Cada produto tem seu prazo, e ele está na embalagem por um motivo.
  • Movimentação da estrutura. Recalque de solo ou empuxo de lençol freático abrem juntas em linha. Aqui o rejunte é sintoma, e trocar só ele é dinheiro fora.

Vale dizer o que não costuma ser a causa, porque leva a culpa injustamente: o cloro na concentração normal de manutenção.

Cloro livre entre 1 e 3 ppm não ataca rejunte de forma relevante. O que ataca é o produto concentrado em contato direto, e o pH fora de faixa por longos períodos.

O índice que mede se a sua água está comendo cimento

Dá pra descobrir isso antes do rejunte cair. O nome é índice de saturação, e é o que piscineiro bom usa pra saber se a água está corrosiva ou incrustante.

Ele junta cinco coisas numa conta só: pH, alcalinidade, dureza cálcica, temperatura da água e sólidos dissolvidos. Nenhum desses valores sozinho responde a pergunta.

A faixa de equilíbrio fica entre -0,3 e +0,3. Abaixo disso a água está faminta e dissolve cimento. Acima, ela deposita cálcio e você ganha crosta branca na linha d’água.

O detalhe que muda tudo é a temperatura entrar na conta. Água a 30 graus é mais agressiva que a mesma água a 22, com exatamente os mesmos números no teste.

É por isso que piscina aquecida come rejunte mais rápido que piscina fria com a química idêntica. Quem liga o aquecimento e mantém a dosagem de sempre não está mantendo a mesma água.

Não precisa fazer a conta na mão. Existe calculadora de índice de saturação de graça em site de fabricante de produto de piscina: você digita os cinco valores e ela responde.

O difícil é ter os cinco valores. E é aqui que a maioria trava, porque o kit de gotas comum só traz cloro e pH.

Kit que mede dureza cálcica e alcalinidade custa pouco mais que dois potes de cloro. É o teste que evita a obra.

Os casos em que esse diagnóstico não fecha

Água agressiva explica a maioria dos casos, mas não todos. Vale conhecer as exceções antes de sair corrigindo dureza.

Piscina com gerador de cloro por sal tem um padrão próprio. O sistema empurra o pH pra cima o tempo todo, e o dono acaba dosando ácido toda semana pra compensar.

Se esse ácido entra sempre no mesmo ponto, perto do retorno ou do skimmer, o rejunte daquele canto morre primeiro. Não é a água toda: é o hábito de despejo.

Outro caso é a piscina que passou meses vazia ao sol. Rejunte feito pra viver molhado resseca, trinca e vira pó quando a água volta.

Esvaziar a piscina “pra descansar” no inverno é um dos piores conselhos que circulam. Além do risco de estufamento em piscina de fibra, você entrega o revestimento pro sol.

E tem a piscina que nunca teve rejunte de verdade. Em alguns acabamentos o que parece junta é a própria argamassa de assentamento aparecendo entre as peças.

Aí o que está saindo é a colagem da pastilha, não a junta, e o reparo é outro serviço. Dá pra diferenciar pela cor e pelo grão.

Rejunte sai em pó fino e uniforme, da cor da junta. Argamassa sai em grão grosso, cinza, e costuma vir com caco de pastilha junto.

Como refazer sem repetir o problema

Antes de qualquer coisa, uma regra que não tem exceção em piscina: cloro e ácido nunca se misturam, nem no balde nem despejados juntos na água.

O reparo em si segue uma ordem que parece óbvia mas quase sempre é atropelada.

Primeiro remova todo o rejunte comprometido, não só o que já caiu. Se a ponta de uma espátula entra com facilidade, aquele trecho sai também, mesmo parecendo firme.

Depois limpe e deixe secar de verdade. Junta úmida não aceita rejunte novo, e a maior parte dos reparos que falham em poucos meses falha por isso.

Escolha material próprio para piscina. Rejunte de base epóxi é o padrão para área de imersão, resiste a produto químico e não é atacado por água agressiva.

Respeite o prazo de cura antes de encher. Esse número varia por fabricante e por produto, então leia a embalagem em vez de repetir o que o vizinho fez.

E resista à tentação de encher a piscina no fim de semana para não perder o feriado. Um reparo curado direito dura anos; um curado pela metade some na primeira temporada.

Em custo, um reparo pontual é serviço pequeno e barato. Refazer o rejunte da piscina inteira já fica numa faixa bem mais larga.

Conte com algo entre R$ 80 e R$ 200 por metro quadrado, dependendo do produto, do estado do revestimento e da região.

O que mantém o rejunte no lugar depois

A prevenção aqui é quase toda química, e cabe em quatro hábitos.

O primeiro é medir dureza cálcica pelo menos duas vezes por ano, e sempre depois de uma troca grande de água. Se der abaixo de 150 ppm, corrija antes de mais nada.

O segundo é não deixar o pH viver abaixo de 7,0. Piscina que passa meses nessa faixa está dissolvendo rejunte, mesmo sem você ver o processo.

O terceiro é diluir tudo. Granulado dissolvido em balde antes de entrar, ácido diluído e espalhado com a bomba ligada, nunca despejado num ponto só.

O quarto é escovar. Escovar não previne diretamente, mas mostra cedo: se a escova está trazendo grão, você tem meses de vantagem sobre quem só percebe quando a pastilha cai.

Aliás, rejunte se desfazendo é uma das explicações para aquele aspecto leitoso que não some com filtragem, assunto que está em água turva mesmo com cloro alto.

Se mais de uma pastilha já soltou, ou se apareceu aquela linha reta atravessando peças, pare por aqui e chame quem entende de estrutura.

Pastilha caindo significa que a argamassa de assentamento também está comprometida, e isso é conserto de revestimento, não de junta.

Rogério Sampaio
Rogério Sampaio

Cuida da piscina de casa desde 2014 e, de tanto acertar na tentativa e erro, virou o cara que a família e os vizinhos chamam quando a água amanhece verde. Não é técnico de piscina: o que ele tem é um caderno com dez anos de dose, prazo e resultado anotados a cada tratamento.