Alcalinidade da piscina, o número que quase ninguém mede

Alcalinidade da piscina, o número que quase ninguém mede

Alcalinidade total é a quantidade de bicarbonato e carbonato dissolvida na água, medida em partes por milhão. Na prática, é o freio do pH.

Ela não deixa o pH se mexer com facilidade. Quanto mais alta a alcalinidade, mais produto é preciso pra mover o pH um décimo que seja.

É por isso que ela é o número mais ignorado da manutenção caseira. Ninguém liga pro freio enquanto o carro anda — só quando ele para de responder.

E é aí que aparece a piscina que consome ácido toda semana, ou aquela em que o pH cai sozinho todo dia depois da chuva. Nos dois casos o problema não é o pH.

Alcalinidade não é um primo do pH, é o freio dele

Muita gente trata os dois como sinônimo porque as duas leituras andam na mesma direção. Mas eles medem coisas diferentes.

O pH diz onde a água está agora. A alcalinidade diz quanta força é preciso pra tirar ela de lá.

Piscina com alcalinidade de 40 ppm é como carro sem freio. Um pouco de chuva ácida, uma dose de cloro estabilizado, e o pH despenca de 7,4 pra 6,8 numa tarde.

Piscina com alcalinidade de 200 ppm é o oposto. Você despeja meio litro de ácido, o pH cai três décimos e volta pro lugar em dois dias.

A confusão fica clara num exemplo do dia a dia. Duas piscinas do mesmo tamanho, as duas com pH 7,6 no teste da manhã de sábado.

Uma vai estar em 7,6 na semana que vem. A outra, em 8,1. O que separa as duas é só a alcalinidade, e nenhuma das duas leituras de pH contou isso.

Por que a faixa de 80 a 120 ppm virou o padrão

Essa faixa aparece na maioria dos manuais de fabricante e das normas de piscina pública. O motivo é prático: é a região onde o pH fica firme sem travar.

Abaixo de 80 ppm o tampão fica fraco demais. Qualquer produto ácido — e o cloro granulado estabilizado é levemente ácido — empurra o pH pra baixo.

Acima de 120 ppm o pH passa a subir sozinho e a resistir à correção. Junto vem o risco de incrustação, principalmente se a dureza cálcica também estiver alta.

Tem exceções que valem conhecer. Piscina tratada com hipoclorito de sódio, que é básico, costuma se dar melhor na parte de baixo da faixa, perto de 80 ou 90 ppm.

Piscina que usa muito tricloro em pastilha, que é bem ácido, aguenta e às vezes agradece a parte de cima, perto de 110 ou 120. O produto que você usa desloca o alvo.

E tem o caso em que o conselho padrão não vale. Em região de água muito mole, é comum mirar de propósito a parte alta da faixa, pra proteger rejunte e peças metálicas da água agressiva.

Vale entender por que a faixa não é um número único. Alcalinidade sozinha não define se a água corrói ou incrusta — ela trabalha junto com o pH, a dureza cálcica e a temperatura.

Água quente com dureza alta satura mais fácil. É por isso que piscina aquecida costuma pedir alcalinidade na parte de baixo da faixa, enquanto piscina fria aguenta mais.

Se você quiser um atalho mental: alcalinidade alta com dureza alta e pH alto é receita de crosta. Alcalinidade baixa com dureza baixa e pH baixo é receita de corrosão.

Alcalinidade baixa deixa o pH em ioiô e come o rejunte

O primeiro sintoma é o que você já viu, mesmo sem ter medido nada: o pH nunca fica onde você deixou.

Você ajusta pra 7,4 no sábado. Na quarta está em 7,0. Corrige de volta, chove no fim de semana, e na segunda está em 6,7.

Esse vaivém desgasta mais do que parece. Água com pH abaixo de 7,0 é corrosiva: ataca o rejunte das pastilhas, o metal das escadas e as partes internas da bomba.

Em piscina de alvenaria com pastilha, rejunte que fica arenoso e começa a soltar grão é sinal clássico de alcalinidade baixa mantida por meses.

Tem também o efeito no conforto. Água ácida arde o olho tanto quanto água básica, e quem culpa o cloro por olho vermelho raramente mediu a alcalinidade.

E tem o efeito no bolso. Cada correção de pH é produto comprado. Uma piscina em 50 ppm consome barrilha o ano inteiro sem nunca resolver a causa.

Tem um caso específico que vale isolar: piscina de fibra de vidro. O revestimento não fornece cálcio nenhum pra água, diferente do reboco de alvenaria.

Nessas, a alcalinidade baixa costuma vir acompanhada de dureza cálcica baixa, e a água fica com fome de mineral. Ela vai buscar onde encontrar, começando pelo rejunte da borda e pelas peças metálicas.

Alcalinidade alta trava o pH e deixa crosta branca

Aqui o sintoma é o inverso, e engana mais gente. O pH sobe e não desce.

Você joga ácido, mede no dia seguinte, o pH caiu um pouquinho. Joga mais, cai mais um pouco. Na semana seguinte está tudo de volta em 7,9.

O que acontece é que o ácido está sendo consumido pelo tampão, não pelo pH. Você está derrubando a alcalinidade sem saber, e devagar.

Junto vem a saturação de cálcio. Alcalinidade acima de 150 ppm com pH alto tira o carbonato de cálcio da solução, e ele se deposita onde encontrar superfície.

Aparece como faixa branca áspera na linha da água, como aspereza no vinil e como crosta dentro do filtro de areia, cimentando os grãos.

A água também perde transparência. É aquele aspecto leitoso que não é alga nem sujeira, e que faz muita gente comprar clarificante sem precisar.

Como medir sem errar: gota a gota, não por cor de fita

Alcalinidade se mede por titulação. Você põe uma quantidade fixa de água da piscina num tubo, adiciona o indicador e vai pingando o reagente contando as gotas até a cor virar.

Cada gota costuma valer 10 ppm no kit residencial comum. Oito gotas até a virada significam 80 ppm. É direto e não tem interpretação de cor.

Fita de teste também traz um campo de alcalinidade, mas a resolução dela é grosseira. Os degraus impressos costumam pular de 40 em 40 ppm.

Traduzindo: a fita não distingue 90 de 120 ppm, que é justamente a diferença que importa. Pra cloro e pH ela serve no dia a dia; pra alcalinidade, não.

Tem um detalhe que quase ninguém sabe. O ácido cianúrico entra na conta da leitura e faz a alcalinidade medida parecer maior do que a que realmente funciona como freio.

A regra prática de quem cuida de piscina há tempo é descontar mais ou menos um terço do valor do estabilizante. Com 60 ppm de cianúrico, uma leitura de 120 vale por volta de 100.

Isso explica um caso que confunde muito: a piscina que mostra 130 ppm de alcalinidade e mesmo assim tem pH instável. A alcalinidade útil dela é bem menor que a lida.

O teste em si leva menos de dois minutos. Enxágue o tubo com a água da piscina, encha até a marca, pingue o indicador, tampe e agite.

Aí vem a titulação: uma gota do reagente, tampa, agita, olha a cor. Repete contando. A virada é nítida, de verde pra vermelho na maioria dos kits.

Colete a amostra sempre no mesmo lugar, com o braço mergulhado até o cotovelo e o tubo virado pra baixo. Água da superfície e água perto do retorno dão leituras diferentes.

Um kit com reagente de alcalinidade custa mais que o kit básico de cloro e pH, geralmente algo entre R$ 60 e R$ 150 dependendo da marca e da região. Ele dura uma temporada inteira.

A sequência pra subir a alcalinidade sem bagunçar o pH

  1. Meça alcalinidade e pH antes de qualquer coisa. Anote os dois. Sem o valor de partida não dá pra saber se a dose funcionou nem quanto ainda falta.
  2. Calcule o volume real da piscina. Comprimento vezes largura vezes profundidade média, em metros, vezes mil. Uma de 8 x 4 com 1,4 m de média dá 44.800 litros.
  3. Use bicarbonato de sódio, não barrilha. Bicarbonato sobe a alcalinidade e quase não mexe no pH. Barrilha faz o contrário: dispara o pH e sobe pouco a alcalinidade.
  4. Trabalhe com a referência de peso. A conta usada no dia a dia é de 1,5 a 1,7 kg de bicarbonato por 100 mil litros pra subir uns 10 ppm. Confirme no rótulo, a pureza varia.
  5. Dissolva num balde antes de aplicar. Bicarbonato jogado seco afunda e forma um monte no fundo. Dissolvido, ele se espalha e age em horas em vez de dias.
  6. Aplique com a bomba ligada, distribuindo pela borda. Ande em volta da piscina despejando aos poucos, longe do skimmer, com o retorno empurrando a água.
  7. Espere de 6 a 8 horas e meça de novo. É o tempo aproximado de uma volta completa do volume numa bomba residencial típica. Medir antes disso mede o ponto de aplicação.
  8. Suba em degraus de 20 ppm por vez. Pra sair de 50 e chegar em 100, faça em duas ou três aplicações separadas por um dia. Dose única grande deixa a água turva por horas.

Uma coisa que ajuda muito: fotografe o boletim no celular toda vez. Em dois meses você tem uma série de números que mostra pra onde a sua piscina puxa sozinha.

Piscina que sempre puxa a alcalinidade pra baixo pede outro tipo de cloro. Piscina que sempre puxa pra cima costuma estar sendo alimentada pela água de reposição.

O bicarbonato é barato. O saco de 25 kg sai bem em conta em loja de material de piscina e dura temporadas numa piscina residencial. É um dos poucos produtos em que comprar grande compensa.

A sequência pra baixar a alcalinidade sem derrubar o pH junto

Essa é a parte que quase ninguém faz direito, porque parece contraditória. O único produto que baixa alcalinidade é ácido, e ácido baixa o pH junto.

O truque é separar os dois em etapas, usando ar. Aeração sobe o pH sem mexer na alcalinidade. Ácido baixa os dois. Alternando, você desce só a alcalinidade.

  1. Segurança primeiro, sem exceção. Ácido e cloro nunca se encontram concentrados, nem no balde nem no funil — a mistura libera gás cloro. Aplique um por vez, com horas de circulação no meio.
  2. Deixe o pH cair de propósito até uns 7,0. Aplique o ácido diluído, com a bomba ligada, e aceite que o pH vai ficar baixo por um tempo. É o preço da operação.
  3. Aere a água pra o pH subir sozinho. Vire os retornos pra cima, ligue a cascata, ponha o robô soltando bolha. O gás carbônico sai, o pH sobe e a alcalinidade fica onde estava.
  4. Meça de novo depois de um dia inteiro. Com o pH de volta em 7,4 e a alcalinidade menor que antes, você fechou um ciclo. Anote os dois números.
  5. Repita quantos ciclos forem necessários. Sair de 200 pra 110 ppm costuma levar de três a cinco ciclos, ou seja, quase uma semana. Não tem atalho pra isso.
  6. Pare quando chegar em 100 ou 110 ppm. Descer mais que isso te joga no problema oposto, com o pH virando ioiô de novo.

Sobre a dose, a referência de mercado é que perto de 2 litros de ácido muriático por 100 mil litros derrubam a alcalinidade uns 10 ppm.

A concentração muda de marca pra marca, então trate esse número como ponto de partida e meça depois de cada ciclo. Nunca como receita fixa.

Vale lembrar que o galão de 5 litros costuma sair entre R$ 30 e R$ 60 dependendo da região. Baixar 90 ppm numa piscina grande consome uma boa parte de um galão.

Uma observação sobre a aeração, que é a parte que mais gera dúvida. Ela não gasta produto nenhum — é só ar entrando em contato com a água.

Qualquer coisa que agite a superfície serve: retorno apontado pra cima formando ondulação, cascata ligada, mangueira jogando água do próprio circuito de volta em arco.

Em compensação, aeração leva tempo. Subir o pH de 7,0 pra 7,4 só com ar pode levar de 12 a 24 horas dependendo de quanto a superfície é agitada.

Os erros que fazem a alcalinidade não parar quieta

O primeiro é medir só o pH. Boletim com pH e cloro e nada mais é o padrão de nove em cada dez donos de piscina, e é a razão de a alcalinidade só ser descoberta quando já está em 200.

O segundo é ignorar a água de reposição. Poço artesiano em várias regiões do Brasil chega com alcalinidade acima de 150 ppm. Se você repõe 300 litros por semana, repõe o problema junto.

Vale medir uma vez a alcalinidade da sua água de torneira ou de poço. É um teste de dois minutos que explica muita coisa que parecia mistério.

O terceiro é usar barrilha achando que é a mesma coisa. Barrilha é elevador de pH. Quem usa ela pra subir alcalinidade acaba com pH em 8,2 e alcalinidade ainda baixa.

O quarto é aplicar bicarbonato e ácido no mesmo dia, pra “acertar tudo de uma vez”. Um neutraliza o outro, você gasta os dois produtos e a água fica exatamente onde estava.

O quinto é confiar em fita de teste vencida. Reagente perde precisão depois de aberto, e um frasco que passou o verão num armário quente lê pra baixo o tempo todo.

O sexto é esquecer da cascata. Água caindo o dia inteiro é aeração contínua: o pH sobe todo dia e você fica corrigindo eternamente sem entender por quê.

O sétimo é medir logo depois de aplicar produto. Alcalinidade medida uma hora depois do bicarbonato não vale nada — a água nem se misturou ainda.

Se eu tivesse que resumir a rotina que funciona: mede alcalinidade uma vez por mês, corrige ela primeiro, só então mexe no pH, e mantém a leitura entre 80 e 120 ppm.

Feito isso, o pH para de dar trabalho quase sozinho. Aqui em casa o consumo de barrilha caiu pra quase nada depois que a alcalinidade parou de morar em 50 ppm.

Perguntas que aparecem sempre

Com que frequência preciso medir a alcalinidade?

Uma vez por mês resolve numa piscina estável. Depois de temporada de chuva forte, de troca grande de água ou de um choque pesado, vale medir na semana seguinte.

Se o seu pH está teimando pra qualquer um dos dois lados, mede na hora — não espera o mês fechar. PH instável é sintoma, alcalinidade é a causa.

Dá pra ajustar alcalinidade e pH ao mesmo tempo?

Não com produtos diferentes no mesmo dia. A ordem que funciona é alcalinidade primeiro, esperar estabilizar, e só então acertar o pH fino.

Quem inverte a ordem corrige o pH, mexe na alcalinidade em seguida e vê o pH sair do lugar de novo. É retrabalho garantido.

Vale um aviso de prazo: depois de acertar a alcalinidade, dê três dias antes de julgar o resultado. A água precisa de umas quantas voltas completas pra assentar de vez.

Bicarbonato de cozinha serve pra piscina?

É o mesmo composto químico, sim. A diferença está no preço por quilo e na embalagem: comprar em caixinha de 200 g pra tratar 40 mil litros sai absurdamente caro.

Loja de piscina e de produto químico vende o mesmo bicarbonato em saco grande, com custo por quilo muito menor. Só confira se é bicarbonato de sódio puro, sem aditivo.

Rogério Sampaio
Rogério Sampaio

Cuida da piscina de casa desde 2014 e, de tanto acertar na tentativa e erro, virou o cara que a família e os vizinhos chamam quando a água amanhece verde. Não é técnico de piscina: o que ele tem é um caderno com dez anos de dose, prazo e resultado anotados a cada tratamento.