Cloro granulado ou pastilha, qual rende mais na piscina de casa?

Cloro granulado ou pastilha, qual rende mais na piscina de casa?

Eu passei uns dois anos comprando pastilha porque era prático: joga no flutuador, esquece, vai viajar.

Até o dia em que a piscina começou a ficar verde toda semana com o teste marcando cloro bonito, e eu descobri que o problema não era falta de cloro — era excesso de tudo que vem junto com a pastilha.

Desde então uso os dois, cada um numa função, e a pergunta “qual rende mais” ficou mais fácil de responder do que parece.

Só que a resposta não é a que a maioria espera, porque “render” aqui não é quantas gramas de cloro tem no pote.

O que tem dentro de cada um dos dois potes

A pastilha que quase todo mundo usa é de tricloro. Ela é forte: por volta de 90% de cloro disponível, o que já explica por que dura tanto no flutuador.

Só que a pastilha não é cloro puro prensado — mais da metade do peso dela é ácido cianúrico, o estabilizante. Ele vem de brinde, você não escolhe, e é isso que muda o jogo inteiro.

O granulado tem duas versões bem diferentes vendidas com o mesmo nome popular.

O dicloro fica na faixa dos 56% de cloro disponível, dissolve rápido, tem pH quase neutro e também carrega estabilizante, só que bem menos que a pastilha.

O hipoclorito de cálcio fica perto de 65%, não carrega estabilizante nenhum e é bem alcalino — sobe o pH da água e adiciona dureza de cálcio.

Repare que já apareceram três variáveis que ninguém compara na prateleira: quanto de cloro, quanto de estabilizante e o que acontece com o pH. É por elas que a conta se decide, não pelo preço do balde.

Onde a pastilha ganha e onde ela cobra a conta

A pastilha ganha em conveniência de um jeito difícil de disputar. Uma pastilha de 200 g num flutuador ou no skimmer se dissolve ao longo de vários dias, liberando cloro devagar.

Isso significa que a água não fica naquele sobe-e-desce de dosar tudo hoje e ficar em zero depois de amanhã.

Pra quem viaja no fim de semana, ou pra quem simplesmente não vai lembrar de mexer na piscina de terça, ela resolve.

A conta chega pelo estabilizante. Aquela pastilha de 200 g leva junto por volta de 108 g de ácido cianúrico.

Numa piscina de 30 mil litros, isso dá algo perto de 3,5 ppm de estabilizante que entra na água e não sai mais — ele não evapora, não é consumido, não some com o sol.

Só sai com a água que respinga pra fora e com a que você drena.

Uma pastilha por semana, então, empurra o estabilizante uns 14 ppm pra cima por mês. A faixa saudável vai de 30 a 50 ppm.

Acima de 100 ppm o cloro fica travado: o teste continua acusando 3 ppm, mas ele age devagar demais pra segurar alga em água quente.

Faça a conta e você vê que uma temporada inteira só de pastilha chega lá sem nenhum descuido da sua parte.

Tem um segundo efeito que aparece antes desse. Tricloro é bem ácido, com pH em torno de 3.

Piscina tratada só com pastilha vai puxando o pH e a alcalinidade pra baixo o tempo todo, e quando a alcalinidade cai demais o pH começa a pular sozinho de uma medição pra outra.

Aí vem o gasto invisível: barrilha, elevador de alcalinidade, e horas de correção que você não teria.

O que o granulado resolve rápido e o que ele não sustenta

Granulado é o oposto: age agora, não sustenta depois.

Ele dissolve em minutos e o cloro livre sobe na hora, o que faz dele a ferramenta certa pra qualquer coisa urgente — água esverdeando, dia de muita gente na piscina, choque depois de temporal.

Como referência de dose, 100 g de um granulado a 60% de cloro disponível levantam por volta de 6 ppm em 10 mil litros de água.

Confira a concentração no rótulo antes de calcular, porque entre 56% e 65% a diferença já é grande o bastante pra você errar a mão.

O problema dele é o outro lado da mesma moeda.

Sem estabilizante suficiente na água, esse cloro que subiu rápido também some rápido. Sol forte de meio-dia numa piscina descoberta derruba metade da concentração em menos de uma hora.

É por isso que muita gente jura que “o granulado não segura”. Não é o produto. É a água sem proteção nenhuma contra o ultravioleta.

E se o granulado for hipoclorito de cálcio, tem um detalhe a mais: ele sobe o pH e adiciona cálcio. Em região de água já dura, uso pesado ao longo de meses ajuda a formar aquela crosta esbranquiçada na linha d’água.

O que muda de um pro outro, lado a lado

Ponto Pastilha (tricloro) Granulado (dicloro / hipoclorito de cálcio)
Cloro disponível ~90% ~56% (dicloro) ou ~65% (hipoclorito de cálcio)
Estabilizante que adiciona Muito: mais da metade do peso Pouco (dicloro) ou nenhum (hipoclorito)
Efeito no pH Puxa pra baixo (ácido, pH ~3) Quase neutro (dicloro) ou sobe (hipoclorito)
Velocidade Libera ao longo de 3 a 7 dias Dissolve em minutos
Melhor uso Manutenção com você fora de casa Correção, choque, dia de festa

Como decidir olhando pra sua piscina, não pra prateleira

A primeira pergunta é: qual o valor do estabilizante hoje? Sem esse número a conversa toda é chute. É um teste que boa parte das lojas de piscina faz na hora, e ele vale mais que qualquer comparação de preço.

Se o resultado vier acima de 80 ppm, pastilha está fora do cardápio até você diluir a água — e diluir é o único caminho, porque não existe produto que baixe estabilizante.

A segunda é o volume.

Piscina pequena, dessas de 3 a 6 mil litros, não combina com pastilha de 200 g. A dose é desproporcional e o estabilizante dispara em poucas semanas.

O motivo é aritmético: o mesmo tanto de ácido cianúrico está indo pra um volume de água cinco vezes menor.

Nesses casos ou se usa pastilha pequena, de 20 g, ou se fica no granulado mesmo.

A terceira é a rotina de chuva. Piscina descoberta em cidade de verão chuvoso tem um consumo de cloro que a pastilha sozinha não acompanha — e chuva também dilui o estabilizante, o que muda a conta na direção contrária.

Se esse é o seu caso, vale entender quanto cloro a chuva realmente consome antes de decidir a proporção entre os dois.

A quarta é o filtro e o sistema.

Se você tem por hábito pôr pastilha dentro do skimmer, cuidado: com a bomba desligada, aquela água parada dentro do skimmer fica extremamente ácida e ataca o cesto, o pré-filtro e, no longo prazo, o rotor da bomba.

Flutuador na superfície ou clorador em linha evitam esse problema, e o clorador é a melhor solução das três quando existe.

O tipo de filtro de areia ou filtro de cartucho que você tem também pesa, porque cartucho tolera menos abuso químico concentrado.

O que eu faço aqui em casa

Uso os dois, e a divisão é simples. Granulado é o que trata a água no dia a dia e nas emergências; pastilha é ferramenta de ausência.

Se vou viajar quatro ou cinco dias no verão, ponho pastilha no flutuador antes de sair.

Fora isso ela fica guardada.

Com isso, o estabilizante fica na faixa dos 40 ppm sem eu precisar drenar nada, o pH para de fugir toda semana e o cloro trabalha de verdade quando eu preciso dele.

Rende mais no sentido que importa, que é quanto de água limpa você compra com o dinheiro que gastou — e não quanto tempo o produto demora pra acabar.

Falando em dinheiro: a diferença de preço entre os dois raramente é o que decide a conta do mês.

O que decide é quanta correção de pH e quanto choque de emergência você precisa comprar por causa de uma escolha errada lá atrás.

Isso entra direto no custo de manter uma piscina por mês, e costuma pesar mais que o balde em si.

Se pra você a escolha tiver que ser uma só, sem meio-termo: fique com o granulado e compre estabilizante separado, uma vez por temporada, na dose certa.

Dá um pouco mais de trabalho, mas você controla as três variáveis em vez de aceitar o pacote fechado que a pastilha impõe.

Rogério Sampaio
Rogério Sampaio

Cuida da piscina de casa desde 2014 e, de tanto acertar na tentativa e erro, virou o cara que a família e os vizinhos chamam quando a água amanhece verde. Não é técnico de piscina: o que ele tem é um caderno com dez anos de dose, prazo e resultado anotados a cada tratamento.